ABC | Volume 110, Nº1, Janeiro 2018

Artigo Original González-Rivas et al Dislipidemias na Venezuela Arq Bras Cardiol. 2018; 110(1):30-35 Introdução Na Venezuela, a doença cardiovascular (DCV), representada pela doença cardíaca isquêmica (16,3%) e pelo acidente vascular cerebral (7,7%), foi a principal causa de óbito em 2012. 1 Ambos estão fortemente relacionados a fatores de risco modificáveis. De acordo com os estudos INTERHEART 2 e INTERSTROKE 3 , as dislipidemias, avaliadas como níveis elevados de apolipoproteína (razão ApoB/ApoA1), representaram os 49,2% e os 25,9% do risco atribuível ao infarto agudo do miocárdio e ao acidente vascular cerebral, respectivamente. Ensaios clínicos controlados randomizados demonstraram que uma redução no colesterol das lipoproteínas de baixa densidade (LDL-c) com terapia com estatinas diminui a incidência de ataque cardíaco e AVC isquêmico. Para cada 38,6 mg/dL de LDL-C reduzido, a taxa anual de eventos vasculares maiores diminui para um quinto. 4 Realizou-se uma compilação de estudos de avaliação da prevalência de dislipidemias na Venezuela. 5 No entanto, a maioria apresenta amostras pequenas, sendo que apenas duas representam uma cidade ou estado. Em 1.848 adultos da cidade de Barquisimeto, na região ocidental do país, o estudo sobre a Avaliação Múltipla do Fator de Risco Cardiovascular na América Latina (CARMELA) 6 (colesterol ≥ 240 mg/dL) apontou a menor prevalência de hipercolesterolemia (colesterol ≥ 240 mg/dL) na América Latina (5,7%). 6 Em 3.108 adultos do estado de Zulia, Florez et al. 7 documentaram uma prevalência de dislipidemia aterogênica (altos níveis de triglicerídeos e baixos níveis de lipoproteína de alta densidade de colesterol [HDL-c]) de 24,1%. Esse número foi maior em homens do que mulheres, e aumentou com a idade. Nenhum estudo na Venezuela incluiu mais de uma região, resultando no Estudo da Síndrome Metabólica Venezuelana, Obesidade e Estilo de Vida (VEMSOLS). Este artigo apresenta os resultados do VEMSOLS, especificamente a prevalência de dislipidemia em cinco populações de três regiões da Venezuela. Métodos Desenho e indivíduos Realizou-se um estudo de observação transversal para determinar a prevalência de fatores de risco cardiometabólicos em uma amostra sub-nacional da Venezuela. Foram avaliados cinco municípios de três regiões: Palavecino, no estado de Lara (urbano), da região ocidental; Ejido (cidade de Mérida), no estado de Mérida (urbano) e Rangel (área de Páramo), no estado de Mérida (rural), ambos na região dos Andes; Catia La Mar, no estado de Vargas (urbano) e Sucre, no Distrito Capital (urbano), ambos na região da capital. De 2006 a 2010, foram selecionados total de 1.320 indivíduos com idade igual ou maior que 20 anos, vivendo há pelo menos seis meses em suas casas, por uma amostragem aleatória de duas etapas. Avaliaram-se três regiões geográficas diferentes do país: Andes, montanhas ao sul; Ocidental, planícies ao centro; e o Distrito Capital, costa ao norte. Cada região foi estratificada por municípios, e um deles foi selecionado aleatoriamente. Foram necessários um mapa e um recenseamento de cada local para delimitar as ruas ou quadras, e para selecionar as famílias a visitar em cada município. Após determinar a região a ser pesquisada em cada local, as visitas começaram a partir do número 1 em diante, pulando cada duas casas. Gestantes e participantes incapazes de se levantar e/ou se comunicar verbalmente foram excluídos. Todos os participantes assinaram o termo de consentimento para participação. Calculou-se o tamanho da amostra para detectar a prevalência de 5,7% de hipercolesterolemia (a condição prevalente mais baixa relatada na Venezuela) 6 , com desvio padrão de 1,55%, resultando em um intervalo de confiança de 95% (IC95%). O número mínimo estimado de indivíduos a serem avaliados foi de 830. No geral, foram avaliados 1.320 indivíduos (89,4% da área urbana e 10,6% da área rural). Dados clínicos e bioquímicos Uma equipe de profissionais de saúde avaliou todos os indivíduos em suas casas ou em um centro de saúde próximo, de acordo com o protocolo padronizado. Cada casa foi visitada duas vezes. Na primeira visita, os participantes receberam informações sobre o estudo e assinaram o termo de consentimento. As informações demográficas e clínicas foram obtidas através de um questionário padronizado. O peso foi medido com o menor número possível de roupas, sem calçados, usando uma balança calibrada. A altura foi medida com uma fita métrica na parede. A circunferência da cintura foi medida com uma fita métrica na crista ilíaca no final da expiração. Também foi calculado o índice de massa corporal (IMC: peso [kg]/altura [m] 2 ). Na segunda visita, extraíram-se amostras de sangue após 12 horas de jejum durante a noite. Posteriormente, elas foram centrifugadas durante 15 minutos a 3.000 rpm, dentro de 30‑40 minutos após a coleta, e transportadas com gelo seco ao laboratório central, onde foram devidamente armazenadas a -40°C até a análise. Coletaram-se os dados dos participantes que estavam ausentes durante a primeira visita. O colesterol total, 8 triglicerídeos, 9 LDL-c, e HDL-c 10 foram determinados por métodos colorimétricos enzimáticos padrão. Categorização de variáveis A dislipidemia foi definida de acordo com o National Cholesterol Education Program/Adult Treatment Panel III (NCEP/ATPIII) 11 , sendo categorizada em seis tipos. Destes, quatro foram dislipidemias isoladas: HDL-c baixo (hiperalfalipoproteinemia):<40mg/dLemhomense<50mg/dL em mulheres; triglicerídeos elevados: ≥ 150 mg/dL; hipercolesterolemia (≥ 240 mg/dL do colesterol total); LDL-c elevado ≥160 mg/dL; e duas foram dislipidemias combinadas: dislipidemia aterogênica (triglicerídeos ≥ 150 mg/dL +HDL-c baixo) e dislipidemia mista (triglicerídeos ≥ 150 mg/dL + colesterol total ≥240 mg/dL). Além disso, os indivíduos foram classificados de acordo com o IMC de peso normal (IMC < 25 kg/m 2 ), sobrepeso (IMC ≥ 25 kg/m 2 e < 30 kg/m 2 ), ou obesos (IMC ≥30 kg/m 2 ). 12 Estabeleceu-se a obesidade abdominal pela circunferência da cintura ≥ 94 cm em homens e ≥ 90 cm em mulheres. 13 31

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