ABC | Volume 115, Nº2, Agosto 2020

Minieditorial Seria a Revascularização Completa Verdadeiramente Superior à ICP apenas da Lesão Culpada em Pacientes que Apresentam Infarto Agudo do Miocárdio com Supradesnivelamento do Segmento ST? Is Complete Revascularization Truly Superior to Culprit-Lesion-Only PCI in Patients Presenting with ST-segment Elevation Myocardial Infarction? Christina Grüne de Souza e Silv a Clínica de Medicina do Exercício – CLINIMEX, Rio de Janeiro, RJ - Brasil Minieditorial referente ao artigo: Revascularização Completa Versus Tratamento da Artéria Culpada no Infarto com Supradesnivelamento do Segmento ST: Registro Multicêntrico Correspondência: Christina de Souza e Silva • Rua Siqueira Campos 93. CEP 22031-072, Copacabana, RJ – Brasil E-mail: christina.g.dss@gmail.com Palavras-chave Doença Arterial Coronariana; Infarto Agudo do Miocárdio com Supradesnivelamento do Segmento ST; Revascularização do Miocárdio; Intervenção Coronariana Percutânea. A intervenção coronariana percutânea primária (ICP) é uma terapia padrão para pacientes com infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento do segmento ST (IAMCSST) e seu objetivo é restaurar o fluxo sanguíneo para a artéria coronária considerada causadora do infarto do miocárdio (conhecida como artéria culpada). Em até metade desses pacientes, estenoses importantes em uma ou mais artérias coronárias que não são responsáveis ​pelo infarto do miocárdio (lesões não-culpadas) também podem ser vistas durante a angiografia- índice. 1 Como os pacientes com IAMCSST e doença arterial coronariana (DAC) multiarterial têm piores resultados clínicos em comparação com pacientes com doença uniarterial, questionou-se se o tratamento por ICP de todas as lesões não- culpadas significativas após a ICP primária (revascularização completa) poderia melhorar o prognóstico. Uma série de ensaios clínicos randomizados (ECR) abordaram esse tópico, comparando os resultados de pacientes com IAMCSST e DAC multiarterial que foram submetidos a revascularização completa versus tratamento por ICP somente da lesão culpada (revascularização incompleta). Anteriormente, ECRs 2-4 de tamanho intermediário mostraram que a revascularização completa é segura e reduz o risco de desfechos compostos, com resultados impulsionados predominantemente pela diminuição do risco de revascularização subsequente. Recentemente, o estudo COMPLETE ( Complete versus Culprit-Only Revascularization Strategies to Treat Multivessel Disease after Early Percutaneous Coronary Intervention [PCI] for STEMI ), 5 um ECR maior, mostrou que o risco do desfecho composto por morte cardiovascular ou infarto do miocárdio recorrente foi menor no grupo de revascularização completa do que no grupo de ICP apenas da lesão culpada em pacientes com IAMCSST, com esse benefício tendo sido impulsionado por uma redução de novo infarto. Além disso, na maior meta-análise de ECRs realizada até o momento abordando este tópico, 6 a revascularização completa foi associada a uma redução da mortalidade cardiovascular em comparação com a ICP apenas da lesão culpada em pacientes com IAMCSST e DAC multiarterial sem choque cardiogênico à apresentação ( odds ratio , 0,69; intervalo de confiança de 95% [IC95%], 0,48-0,99; p = 0,05). Entretanto, para fornecer uma base de evidências balanceada para a tomada de decisão clínica, os resultados de estudos observacionais devem complementar aqueles obtidos no ECR. Embora seja geralmente aceito que os ECRs são o “padrão ouro” para avaliação de terapias médicas, eles tendem a avaliar intervenções em condições ideais em populações altamente selecionadas, limitando a generalização de seus resultados à prática clínica. Nesta edição dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, Cadore et al., 7 apresentam os resultados de um estudo observacional conduzido em dois hospitais brasileiros comparando a revascularização completa versus ICP apenas da lesão culpada em pacientes com IAMCSST e DAC multiarterial. De um total de 85 pacientes que tinham lesões não-culpadas com estenose de pelo menos 70% na estimativa visual (72% do sexo masculino, média de idade de 62 anos), 58 pacientes (68%) foram submetidos à revascularização completa. No grupo de revascularização completa, a minoria dos pacientes (10%) foi submetida à ICP da lesão culpada durante o procedimento índice de ICP para IAMCSST, enquanto 52 pacientes (90%) foram submetidos à revascularização estadiada (isto é, ICP durante um procedimento separado do procedimento de ICP índice para IAMCSST), com tempo médio entre os procedimentos de 13 dias. Após um ano de seguimento, 8% dos pacientes morreram. O desfecho primário composto (mortalidade cardiovascular, novo infarto do miocárdio, angina recorrente) ocorreu em seis pacientes (10%) no grupo de revascularização completa, em comparação com dez pacientes (37%) no grupo de ICP apenas da lesão culpada ( odds ratio , 5,1; IC95%, 1,6- 16,1; p = 0,005). Morte por causa cardiovascular ocorreu em dois pacientes (3%) submetidos à revascularização completa em comparação com cinco pacientes (19%) submetidos à ICP apenas da lesão culpada ( odds ratio , 6,4; IC95%, 1,2-35,3). Acidente vascular cerebral, parada cardíaca não fatal, sangramento grave ou revascularização subsequente (o desfecho secundário composto) ocorreu DOI: https://doi.org/10.36660/abc.20200640 238

RkJQdWJsaXNoZXIy MjM4Mjg=