ABC | Volume 114, Nº2, Fevereiro 2020

Minieditorial Qual o Significado Clínico Real da Hipersensibilidade do Seio Carotídeo na Prática Clínica? Um Dilema Ainda a Espera de Respostas What is the Real Clinical Significance of Carotid Sinus Hypersensitivity in Clinical Practice? A Dilemma Still Waiting for Answers Tan Chen W u Hospital das Clínicas Instituto do Coração, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, SP – Brasil Minieditorial referente ao artigo: Mortalidade de uma Coorte de Portadores da Resposta Cardioinibitória à Massagem do Seio Carotídeo – Estudo Longitudinal com 11 Anos de Seguimento Correspondência: Tan Chen Wu • Hospital das Clínicas Instituto do Coração, Departamento de Arritmia, Av. Dr. Eneas de Carvalho Aguiar, 44, CEP 05403-000, São Paulo, SP – Brasil E-mail: tanchen.cardio@gmail.com Palavras-chave Massagem Seio Carotídeo/fisiopatologia; Síncope; Idoso; Hipotensão; Mortalidade; Estimulação Cardiaca Artificial. DOI: https://doi.org/10.36660/abc.20200005 A hipersensibilidade do seio carotídeo (HSC) é definida por pausa ≥ 3 segundos (sinusal ou em forma de bloqueio atrioventricular) e/ou queda da pressão arterial sistólica ≥ 50 mmHg durante a massagem do seio carotídeo (MSC). 1 A prevalência da HSC é variável, de acordo com o método e a população avaliada, em até 68% de pacientes idosos com síncopes e 35 % de indivíduos assintomáticos com mais de 65 anos de idade. 2 Portanto, deve-se questionar sempre a relação causa-efeito entre hipersensibilidade do seio carotídeo e síncope, podendo ser apenas um achado casual e não necessariamente ser a síndrome do seio carotídeo (SSC), uma das causas da síncope observada principalmente em pacientes idosos. 3 A relevância clínica da HSC obtida com MSC foi questionada em um estudo publicado recentemente por Wu e colaboradores. 4 Os autores compararam a resposta à MSC entre 99 pacientes com síncope a esclarecer e 66 pacientes assintomáticos e encontraram taxas de HSC semelhantes entre os dois grupos, com resposta cardioinibitória em 24,2 e 25,8% e vasodepressora em 8,1 e 13,6%, em pacientes sintomáticos e assintomáticos respectivamente (p = 0,466). 4 Portanto, a HSC pode ser uma resposta inespecífica na avaliação da síncope nesses pacientes com significado clínico dúbio, especialmente na população idosa, com múltiplas comorbidades, muitas vezes com possibilidade de etiologias variadas. Tentativas de refinamento ou modificação da definição da resposta positiva foram propostas para possibilitar acurácia no diagnóstico da SSC como o valor de corte da pressão arterial sistólica ≤ 85 mmHg aliado aos sintomas sugerido por Solari e colaboradores. 5 Os autores concluíram que um terço dos 164 pacientes avaliados com forma vasodepressora isolada não puderam ser identificados com o critério vigente (queda da pressão arterial sistólica ≥ 50 mmHg) quando comparado com o valor de corte de ≤ 85mmHg da pressão arterial sistólica. Krediet e colaboradores 6 também questionaram os critérios atuais para HSC, considerando como sendo muito sensíveis, resultando na alta prevalência observada na população idosa. 6 Sugeriram a mudança para a pausa ≥ 6 segundos e/ou queda da pressão arterial média para < 60 mmHg por mais de 6 segundos, baseada no fato de que são necessários 6 segundos de assistolia para ocasionar a perda da consciência; 7 que na população geral o percentil 95 para resposta a MSC foi de 7,3 segundos de assistolia; 6 que no seguimento clínico tiveram recorrência significativa da síncopes os paciente com pausas > 6 segundos (43%), comparados aos pacientes com 3‑6 segundos que apresentaram somente 0,7% de ocorrência; 8 e que no International Study on Syncope of Uncertain Etiology 2 (ISSUE-2) a média de pausa na recorrência observada da síncope foi de 9 segundos (8–18 segundos). 9 Baseado nesse novo critério, McDonald e colaboradores 10 analisaram a mortalidade de acordo com o critério vigente e o critério proposto por Krediet (descrito acima) e Kerr (pausa > 7,3 segundos e queda da pressão arterial sistólica > 77 mmHg). 10 Em um total de 272 pacientes, 106 (38,9%) tinham HSC de acordo com o critério padrão, 141 (51,8%) e 28 (10,3%) de acordo com critério de Krediet e Kerr. Não observaram diferença estatística na mortalidade em pacientes com e sem HSC em seguimento médio de 8,6 anos pelo critério padrão (32 vs. 22%, respectivamente p = 0,073), porém notaram diferenças de acordo com critério de Krediet (33 vs. 19%, p = 0,009) e Kerr (53 vs. 23%, p < 0,001). Após ajustes por idade e sexo, somente a HSC definida pelo critério de Kerr foi associada ao aumento da mortalidade total (taxa de risco 2,023, IC 95% 1,131-3,618, p = 0,009). Nestaedição,oestudorealizadoporLacerdaecolaboradores 11 observaram a evolução dos 502 pacientes submetidos a MSC, com 52 pacientes apresentando resposta cardioinibitória ou assistolia ≥3 segundos. Quando comparados aos 408 pacientes com resposta fisiológica (ou sem HSC), os autores não observaram diferenças tanto na mortalidade cardiovascular como na mortalidade relacionada ao trauma, com taxas de mortalidade total de 55,8 vs. 49,3% (p = 0,38), em pacientes com e sem resposta cardioinibitória respectivamente. 11 Entre os 52 pacientes com resposta cardioinibitória à MSC, somente 7 pacientes tinham história de síncope e não foi necessário o implante de marca‑passo emnenhumdesses pacientes. A baixa prevalência de pacientes com síncope no estudo, colocada como limitação, pode ter reforçado ainda mais a indiferença na evolução dos pacientes com ou sem HSC cardioinibitória. Esses resultados reforçam a hipótese da limitação dos achados da HSC para a aplicabilidade clínica na maioria dos casos observados e estão de acordo com a literatura vigente. 254

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