ABC | Volume 113, Nº4, Outubro 2019

Minieditorial Rivarola e Scanavacca A neurolinguística do coração Arq Bras Cardiol. 2019; 113(4):734-736 previsível da FC. Contudo, essa percepção inicial geralmente dá lugar a interpretações mentais mais elaboradas, à medida que certas ações das áreas corticais se revelam. O córtex frontal (CF) e, em particular, o córtex pré-frontal (CPF) medial, têm um papel significativo ao ativar as vias GABAérgicas que exercem controle inibitório sobre uma amígdala ativada. 7 Quanto mais abstrato o evento estressante, mais importante e modulada é a inibição dos circuitos cardioaceleratórios subcorticais, o que significa que todas essas estruturas neurais podem ser recrutadas diferencialmente, dependendo da natureza do desafio, criando padrões de resposta específicos ao contexto. Tarefas complexas que requerem funções cognitivas, como a aritmética, processamento e manipulação de informações online, são altamente dependentes dessa downregulação recíproca entre o córtex e a amígdala. 8 A VFC resultante leva em consideração tantas variáveis que parece improvável definir bandas espectrais específicas como biomarcadores confiáveis, assumindo uma causalidade mecanicista, especialmente quando se trata de contextos estressantes abstratos, como expectativas de resultados futuros, condições emocionais e representação de valores econômicos. 7 Para ilustrar essa limitação, de uma maneira muito simplificada, imagine que você está prestes a fazer uma prova de matemática. No início, o desafio pode perturbá-lo, o que é inicialmente considerado um “perigo”, e assim o núcleo da amígdala imediatamente desencadeia uma retirada vagal (afetando as potências espectrais de alta e baixa frequência) e um reflexo simpático-excitatório (modificando os espectros de baixa frequência). Alguns minutos depois, você percebe que pode lidar com isso e começa a se sentir confiante. Você só irá necessitar de um pouco de concentração. Uma representação mais precisa da Gestalt foi alcançada. Ao ativar uma via GABA, três principais áreas diferentes do seu CPF são envolvidos: 1-região posterior e dorsal do CPF rostral (vinculado a funções cognitivas); 2- CPF dorsomedial (confiavelmente relacionado à cognição social) e finalmente 3- CPF medial-orbital e CPF ventral-anterior (associados a aspectos autonômicos de contextos emocionais e à “recompensa e punição”). 6,7 Ao exercer um controle inibitório equilibrado sobre a amígdala através de uma Rede Autonômica Central integrada, essas estruturas anatômicas orientam o comportamento e a adaptabilidade direcionados a objetivos e, finalmente, ditam a quantidade de acetilcolina e norepinefrina a serem liberadas das fibras pós-ganglionares próximas ao nó sinusal, remodelando os espectros da VFC mais uma vez. Lembre-se de que o histórico genético e o desempenho cognitivo podem influenciar significativamente todos esses processos. 7 Qual é o valor da VFC na avaliação do estresse, então? Desde 1965, Hon e Lee 9 já haviam identificado padrões de intervalo entre batimentos anteriores ao sofrimento fetal grave, mesmo antes de uma mudança perceptível na frequência cardíaca fetal. Sem dúvida, foi comprovado que a VFC é um índice essencial de adaptabilidade do organismo e, portanto, tem sido estudado extensivamente sob uma ampla gama de estímulos estressantes. Resultados conflitantes, no entanto, sugerem reações distintas a diferentes formas de estresse. Enquanto alguns autores demonstraram um aumento global da VFC após exposição ao ruído, 10,11 tarefas envolvendo discurso público 12 e atenção sustentada, 13 outros encontraram uma redução global da VFC durante tarefas envolvendo memória 14 e cognição 15 . Alguns autores provaram que as condições emocionais se correlacionam com a redução da banda de alta frequência 16 , e outros, que elas são neutras. 12 Ainda estamos longe de confiar em endpoints substitutos para entender as diferentes partes da associação entre o coração e o cérebro. Mesmo utilizando técnicas muito mais sofisticadas, como a neuroimagem do fluxo sanguíneo cerebral regional, ainda estamos arranhando a superfície dessa intricada fisiologia. A VFC pode ser uma ferramenta interessante para detectar características gerais da resposta ao estresse, embora não seja confiável para distinguir entre seus mecanismos complexos. 1. Sanchez-HecharvarriaME, Chiya S, Carrazona-Escalona R, Cortina-Reyna S, Andreu-Heredia A, et al. Introdução da aplicação do coeficiente de Gini ao espectro de variabilidade da frequência cardíaca para avaliação do estresse mental. Arq Bras Cardiol. 2019; 113(4):725-733. 2. Kapa S, VenkatachalamK, Asirvathan S. The Autonomic Nervous System in Cardiac Electrophysiology. An Elegant Interection and Emerging Concepts. Cardiol Ver. 2010;18(6):275-84. 3. Armour J, Murphy D, Yuan B, Macdonald S, Hopkins D. Gross and microscopic anatomy of the human intrinsic cardiac nervous system. Anat Rec. 1997;247(2):289-98. 4. Pauza D, Skripka V, Pauziene N, Stropus R. Morphology, distribution, and variability of the epicardiac neural ganglionated subplexuses in the human heart. Anat Rec. 2000;259(4):353-82. 5. Wake E, Brack K. Characterization of the intrinsic cardiac nervous system. Auton Neurosci. 2016 Aug;199:3-16. 6. Thayer JF, Ahs Fredrik, FredriksonM, Sollers III, JJ,Wager, TD. AMeta-analysis of heart rate variability and neuroimaging studies: Implications for heart rate variability as amarker of stress and health. Neuroscience and Biobehav Rev.2012;36(2):747-56. 7. Thayer JF, Hansen AL, Saus-Rose E, Johnsen BH. Heart rate variability, Prefrontal Neural Function, and Cognitive Performance: The Neurovisceral IntegrationPerspectiveoSelf-regulation,Adaptation,andHealth.AnnBehav Med. 2009;37(2):141-53. 8. Goldman-Ratik, PS. The prefrontal landscape: implications of functional architectureforunderstandinghumanmentationandthecentralexecutive.In Roberts AC, Robbins TW,Weiskrantz L, eds. The prefrontal cortex: executive and cognitive function. Oxford: Oxford University Press; 199.p. 87-102. 9. Hon EH, Lee ST. Electronic evaluations of the fetal heart rate patterns preceding fetal death, further observations. Am J Obstet Gynec. 1965 Nov 15;87:814-26. Referências 735

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