ABC | Volume 113, Nº1, Julho 2019

Minieditorial Perfil dos Cardiologistas Brasileiros: Um Olhar sobre Liderança Feminina na Cardiologia e sobre o Estresse — Desafios para a Próxima Década Profile of Brazilian Cardiologists: An Overview of Female Leadership in Cardiology and Stress — Challenges for the Next Decade Evandro Tinoco Mesquita, 1,2, 3 Eduardo Thadeu de Oliveira Correia, 2 Letícia Mara dos Santos Barbetta 2 Sociedade Brasileira de Cardiologia - Diretoria de Qualidade Assistencial, 1 Rio de Janeiro, RJ – Brasil Universidade Federal Fluminense, 2 Niterói, RJ – Brasil Hospital Pró-Cardíaco, 3 Rio de Janeiro, RJ – Brasil Minieditorial referente ao artigo: O Perfil do Cardiologista Brasileiro – Uma Amostra de Sócios da Sociedade Brasileira de Cardiologia Correspondência: Letícia Mara dos Santos Barbetta • Hospital Universitário Antônio Pedro - Av. Marquês do Paraná, 303. CEP 24033-900, Niterói, RJ – Brasil E-mail: leticiabarbetta@gmail.com Palavras-chave Cardiologistas; Liderança; Salários e Benefícios; Mulheres; Identidade de Gênero; Sexismo; Preconceito. DOI: 10.5935/abc.20190132 A cardiologia é uma especialidade médica que frequentemente exerce atividade ambulatorial e hospitalar, liderando o cuidado cardiovascular em um ambiente complexo, frente ao envelhecimento. A maior necessidade de tomadas de decisões complexas e conhecimento sobre recursos tecnológicos pode gerar sobrecarga de atividades e mudanças do perfil do cardiologista brasileiro como, por exemplo, em sua mecânica remuneratória, horas de lazer e níveis de estresse. Dessa forma, estudos de demografia médica são fundamentais para entender a dinâmica desses profissionais de saúde. No estudo de Faganello et al., 1 os autores investigaram o perfil do cardiologista brasileiro por meio de um estudo transversal baseado no envio de questionários via e-mail para cardiologistas adimplentes da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), em 2017. É importante ressaltar que a possibilidade de cardiologistas com menores rendas serem mais inadimplentes configura um ponto capaz de promover viés no estudo, influenciando os resultados sobre a renda dos profissionais. Além disso, o estudo não inclui profissionais que podem estar exercendo sua atividade profissional sem serem filiados à SBC. Dos 13.462 associados adimplentes, 70,9% são homens, dados semelhantes à demografia médica do Conselho Federal de Medicina de 2018, que identificou 15.516 médicos com título de especialista em cardiologia, sendo 70,1% do sexo masculino, revelando não existir uma diferença significativa entre homens e mulheres quanto a se associar à SBC. 1,2 Apesar da diferença significativa entre a porcentagem de mulheres e homens cardiologistas, no estudo em questão, as mulheres representaram a maior fatia das faixas etárias mais jovens, o que pode revelar um aumento do ingresso das mulheres na cardiologia nos últimos anos. 1 Um dos principais achados do estudo foi a diferença salarial entre os gêneros feminino e masculino. Nas faixas de renda mais elevadas, foi verificada maior proporção de homens (66,5% dos homens relataram ganhar mais de 20 mil reais vs. 31,2% das mulheres), com p < 0,001, mesmo após ajuste para horas de trabalho e faixa etária. 1 O artigo traz como um possível fator para essa diferença salarial a maior proporção de homens atuando em setor privado (14% das mulheres vs. 23,9% dos homens), enquanto a proporção de mulheres no setor público e no meio acadêmico foi maior (53% das mulheres vs. 44% dos homens), áreas que possuemmenores remunerações quando comparadas ao setor privado. 1 No entanto, outros fatores devem ser considerados. 3 Um estudo realizado por Douglas et al., 4 identificou que fatores como existência de modelos femininos positivos e uma especialidade amigável às mulheres influenciam as escolhas de carreira do público feminino. Dessa forma, a discrepância entre a proporção entre homens e mulheres por si só pode se comportar como um fator de impedimento para o ingresso das mulheres na especialidade, além de ainda haver poucas mulheres ocupando cargos de liderança. Outro aspecto importante a ser abordado, mas não investigado no estudo, é a presença do sexismo na cardiologia, que pode ser um dos fatores que contribuem para a menor presença das mulheres na especialidade e menor remuneração. Estudos britânicos revelaram que cerca de 6% dos residentes dos primeiros anos de especialização vivenciaram ou testemunharam linguagem sexista, entretanto esse número aumenta para 15%nos últimos anos da residência. 3 Sendo assim, abordagens que busquem cessar o sexismo no local de trabalho poderiam acarretar maior ingresso das mulheres na cardiologia, motivando-as a ascenderem na carreira e ocupar cargos de liderança e, dessa forma, gerar modelos femininos de sucesso e melhores perfis de remuneração. Outro relevante achado do estudo foi em relação ao nível de estresse entre os cardiologistas: 64,2% consideram apresentar níveis adequados de estresse, 24,3% não se consideram estressados e 11,3% relatam estresse em grande proporção, sendo a principal causa as más condições de trabalho. Esses dados foram significativamente menores do que dados norte-americanos, onde o burnout esteve presente em 46% dos cardiologistas. 1 Apesar dessas informações serem importantes, ferramentas estruturadas para pesquisa de burnout devem ser implementadas em futuros questionários para conhecimento da prevalência 69

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