ABC | Volume 112, Nº4, Abril 2019
Editorial Rumo a uma Cardiologia Centrada no Paciente e Guiada por Dados Toward a Patient-Centered, Data-Driven Cardiology Antonio Luiz Ribeiro 1 e Gláucia Maria Moraes de Oliveira 2 Universidade Federal de Minas Gerais, 1 Belo Horizonte, MG – Brasil Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2 Rio de Janeiro, RJ – Brasil Correspondência: Gláucia Maria Moraes de Oliveira • Universidade Federal do Rio de Janeiro – R. Prof. Rodolpho P. Rocco, 255 – 8°. Andar – Sala 6, UFRJ. CEP 21941-913, Cidade Universitária, RJ – Brasil E-mail: glauciam@cardiol.br , glauciamoraesoliveira@gmail.com Palavras-chave Cardiologia; Tomada deDecisãoClínica; Assistência Centrada no Paciente;Medicina Baseada emEvidências/métodos; Acesso à Tecnologia emSaúde; Inteligência Artificial; EquipamentoDigital para Diagnóstico; Aprendizado deMáquinas/tendências; Gestor de Saúde; Relações Médico-Paciente. DOI: 10.5935/abc.20190069 A partir dos anos 70 e 80 do século passado, o advento dos estudos clínicos aleatorizados e de grandes coortes, associado ao desenvolvimento da metodologia para realização de revisões sistemáticas e metanálises, provocou uma revolução na forma de pensar e realizar a prática em saúde. A medicina baseada em evidências (MBE), definida como a integração das melhores evidências de pesquisa com experiência clínica e valores do paciente, 1 impôs-se como um novo paradigma, passando a nortear o ensino médico e as publicações especializadas. Um dos princípios da MBE foi exatamente a primazia das informações obtidas de estudos clínicos randomizados e de metanálises, que foram colocados no topo de uma hierarquia de evidências, valorizando resultados quantitativos mais do que a experiência clínica e a opinião dos especialistas. Na verdade, sempre foi um desafio para a MBE a integração das evidências empíricas com outros tipos de conhecimento médico, como a expertise clínica e a fundamentação patofisiológica, ou mesmo as preferências de pacientes individuais. 2 OusodaMBE na prática clínica tambémesbarra na dificuldade de encontrar evidências robustas para todos os subgrupos de situações clínicas encontradas no mundo real, “zonas cinzentas” nas quais nenhuma evidência confiável pode ser obtida da literatura científica para orientar o médico no cuidado de seu paciente. Ensaios clínicos randomizados são caros e geralmente exigemgrandes amostras de estudo e acompanhamento de longo prazo. Existem diversas situações sem evidências, ou nas quais essas são inconsistentes ou de baixa qualidade. 3 Nas duas últimas décadas, o uso da tecnologia digital invadiu a vida diária em todo o mundo e mudou radicalmente a forma das pessoas viverem e se relacionarem, com impacto direto sobre a prática de saúde. Sistemas públicos e privados de informação e de registro administrativo da prática em saúde se tornaram ubíquos e cada vez mais complexos e completos, guardando informações que vão de doenças de notificação compulsória a motivos de internação e causa de morte. Os equipamentos de diagnóstico se tornaram digitais e o prontuário médico eletrônico passou a acumular informações clínicas, medicações prescritas e exames laboratoriais dos pacientes. Smartphones e aparelhos digitais passaram a medir a atividade física ou registrar a dieta dos indivíduos, numa miríade de aplicativos e software , incluindo o compartilhamento de informações em redes sociais. Os avanços computacionais também permitiram o aparecimento da bioinformática, com obtenção de grande volume de informações genéticas e acerca de proteínas, hormônios e outras substâncias presentes no organismo. A disponibilidade desta enorme quantidade de dados e de novas técnicas analíticas – o big data analytics 4 – abre novas possibilidades científicas, prometendo provocar uma verdadeira revolução na prática em saúde. Áreas da inteligência artificial (IA), como o machine learning e a data mining, permitem interpretar e apreender de forma interativa com a informação pouco estruturada disponível nos grandes bancos de dados, reconhecendo padrões ocultos de combinação das informações que não são obtidas com os métodos estatísticos tradicionais. 5 Métodos baseados em IA são cada vez mais aplicados à cardiologia para diagnóstico de combinações de múltiplas modalidades de imagens, biobancos, coortes eletrônicas, sensores clínicos presenciais e à distância para monitoração de patologias crônicas, registros eletrônicos de saúde, genomas e outras técnicas moleculares, entre outros 6 (Quadro 1). O sequenciamento completo do genoma e do exoma, já disponíveis em múltiplos centros, e o futuro sequenciamento do proteoma, do transcriptoma e do metaboloma poderão levar ao conhecimento das diferenças biológicas dos indivíduos, contextualizando os fenótipos observados com sua caracterização molecular, levando à modulação do tratamento para alvos específicos, com maior segurança e precisão, na chamada medicina de precisão. 7 Esta perspectiva de transformação de como o conhecimento é gerado e aplicado, a partir do uso de novas fontes de dados e metodologias de análise, têm o potencial de trazer um novo paradigma para a prática médica e em saúde.(Quadro 1) 8-13 Entretanto, a utilização pelos gestores e profissionais de saúde desse grande volume de dados, para o planejamento das ações em saúde e no cuidado direto aos pacientes, ainda constitui um grande desafio. As dificuldades e riscos não podem ser subestimados. 14,15 Os estudos de IA geralmente se utilizamde dados observacionais, obtidos de bases de dados administrativas ou de prontuários clínicos, com potencial de ocorrência de diferentes tipos de vieses e fatores de confundimento. As associações obtidas raramente preenchem os critérios de causalidade, e estudos bem desenhados e de execução longa 371
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