ABC | Volume 111, Nº3, Setembro 2018

Minieditorial Apneia Obstrutiva do Sono: Um Marcador de Remodelamento Cardíaco em Pacientes com Doença de Chagas Crônica Obstructive Sleep Apnea: A Marker of Cardiac Remodeling in Patients with Chronic Chagas Disease Reinaldo B. Bestetti Curso de Medicina - Universidade de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, SP - Brasil Minieditorial referente ao artigo: Apneia Obstrutiva do Sono é Comum e está Associada à Remodelação Cardíaca em Pacientes com Doença de Chagas Correspondência: Reinaldo B. Bestetti • Av. Costábile Romano, 2201. CEP 14096-900, Ribeirânia, Ribeirão Preto, SP – Brasil Email: rbestetti44@gmail.com Palavras-chave Doença de Chagas; Trypanosoma Cruzi; Cardiomiopatia Chagásica; Apneia Obstrutiva do Sono; Polissonografia/ métodos; Remodelamento Atrial. DOI: 10.5935/abc.20180177 A Doença de Chagas Crônica (DCC) continua sendo um grande flagelo para as pessoas que vivem na América do Sul e uma questãomédica emergente fora do Continente Americano, devido à globalização. A Cardiopatia Chagásica Crônica (CCC) afeta cerca de 30% dos pacientes com DCC, surgindo de 20 a 30 anos após a infecção com Trypanosoma cruzi . 1 Oprognóstico de pacientes de DCC é implacável, com uma mortalidade de 5 anos chegando a 35%. 2 Pacientes comCCC tem um resultado ainda pior , 2 particularmente aqueles com remodelamento ventricular e atrial, que se manifesta através de insuficiência cardíaca sistólica crônica e fibrilação atrial. 3,4 Assim, é importante reconhecer preditores de remodelamento ventricular e atrial em pacientes com CCC para oferecer o tratamento disponível adequado aos pacientes com esse quadro. Pressão arterial sistólica, sexo masculino e a Classificação Funcional da New York Heart Association predizem remodelamento ventricular em pacientes com DCC. 5 Por outro lado, até onde sei, ainda não foram determinados os preditores de remodelamento de atrial para pacientes com essa doença. Nesta edição da Revista, Medeiros et al., 6 relatam um estudo original de 135 pacientes com doença de Chagas (30% dos quais na forma indeterminada e os demais com CCC) que foram submetidos a polissonografia noturna para avaliar a relação da respiração do distúrbio do sono e remodelamento cardíaco. Significativamente, 62% dos pacientes também sofriam de hipertensão arterial sistêmica (HAS) concomitante. Foi encontrada apneia obstrutiva do sono (AOS) de moderada a grave em 21% dos pacientes. Medeiros et al., 6 confirmam que ser do sexo masculino e ter HAS são preditores de remodelamento ventricular, e também descobriram que o índice de apneia-hipopneia, um marcador diagnóstico de severidade da AOS, foi um preditor de remodelamento tanto atrial, quanto ventricular. A prevalência de AOS na população em geral é de 21%. Ela é de moderada a grave em 9% dos indivíduos afetados, 7 e aumenta a morbidade e mortalidade. 8 A AOS tem sido associada independentemente comHAS 9 e com diversos tipos de distúrbios cardiovasculares diferentes, incluindo insuficiência cardíaca crônica, 10 condição geralmente associada ao remodelamento cardíaco. Vale observar que a AOS por si só tem também sido independentemente associada ao remodelamento ventricular esquerdo e ao diâmetro atrial esquerdo. 11 Como as excelentes descobertas relatadas por Medeiros et al., 6 podem ser incorporadas à prática clínica? Acredito que seria necessário testar a utilidade da polissonografia em pacientes com DCC sem HAS concomitante. Através desse teste, poderíamos eliminar o efeito aditivo da AOS e da HAS 11 sobre a gênese do remodelamento cardíaco, bem como determinar o efeito real da AOS sobre a indução de anomalias cardíacas em pacientes com esse quadro. Por outro lado, é importante reconhecer que uma proporção substancial dos pacientes com DCC não possui HAS concomitante no estudo de Medeiros et al., 6 Assim, é razoável admitir que a AOS, por si só, poderia ter induzido, pelo menos em parte, o remodelamento atrial e ventricular observado naquele estudo. O aparecimento da AOS pode, por si só, representar um fardo extra à função miocárdica de pacientes com DCC/CCC porque a AOS ativa a atividade simpática 12 e é pró-inflamatória. 8 Os achados histológicos observados na cardiomiopatia por catecolaminas são similares àquelas encontradas em CCC, 13 sugerindo assim um papel para a disfunção autonômica na patogênese dessa doença. Ademais, as citocinas pró‑inflamatórias se encontram mais aumentadas em pacientes com CCC e HAS, se comparado a pacientes com apenas CCC, 14 sugerindo também um papel para as citocinas na patogênese de pacientes com esta condição. Claramente, a presença da AOS pode representar uma ameaça potencial curável para pacientes com CCC. Parabenizo a Medeiros et al., 6 por esse estudo importante, e espero muito que continuem no curso essa linha de pesquisa não apenas por sua contribuição potencial para o entendimento da patogênese do CCC, mas tambémpor seu impacto potencial sobre o curso clínico deste flagelo para o nosso povo. 373

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