ABC | Volume 111, Nº3, Setembro 2018

Minieditorial Dislipidemia Secundária em Crianças Obesas – Há Evidências para Tratamento Farmacológico? Secondary Dyslipidemia In Obese Children – Is There Evidence For Pharmacological Treatment? Ana Cristina Sayuri Tanaka Unidade de Cardiologia Pediátrica e Cardiopatias Congênitas no Adulto - Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, São Paulo, SP – Brasil Minieditorial referente ao artigo: Dislipidemia Secundária em Crianças Obesas - Há Evidências para Tratamento Farmacológico? Correspondência: Ana Cristina Sayuri Tanaka • Rua: Andrea Caporale, 20. CEP 05590-060, Vila Gomes, São Paulo, SP - Brasil E-mail: anacris.tanaka@incor.usp.br Palavras-chave Cardiopatias Congênitas; Dislipidemia; Estresse Oxidativo; Síndrome Metabólica; Indicadores de Morbimortalidade. DOI: 10.5935/abc.20180187 A obesidade é uma condição que vem aumentando progressivamente em todo o mundo, inclusive em crianças e adolescentes, gerando elevados custos para os sistemas de saúde. A obesidade pediátrica está associada à dislipidemia, ao estresse oxidativo, à resistência à insulina e à disfunção endotelial, fatores de risco cardiovascular e componentes da síndrome metabólica, 1 e leva a consequências adversas como a mortalidade precoce e morbidade física na idade adulta em curto e em longo prazos. A dislipidemia típica da obesidade consiste no aumento dos triglicérides e dos ácidos graxos livres associado à diminuição do HDL-c (colesterol de alta densidade), normalidade ou discreto aumento do LDL-c (colesterol de baixa densidade) e aumento do VLDL-c (colesterol de densidade muito baixa). As concentrações de apolipoproteina plasmática B (apo B) também estão frequentemente aumentadas, em parte devido à produção hepática aumentada de lipoproteínas contendo apo B. 2,3 Na maioria dos casos, a dislipidemia é decorrente de maus hábitos de vida, como dieta rica em gorduras saturadas ou trans e sedentarismo. Para fins de planejamento de monitorização e tratamento, deve-se fazer a estratificação de risco cardiovascular desde a infância, orientando-se não só a criança, mas principalmente toda a família que convive com ela. Estudos longitudinais têm demonstrado que intervenções em crianças são efetivas na prevenção da doença cardiovascular em adultos. O tratamento da dislipidemia associada à obesidade deve ser direcionado para a perda de peso, por meio do aumento do exercício físico e de melhores hábitos alimentares, com uma redução na ingestão total de calorias e redução da ingestão de ácidos graxos essenciais. Asmudanças no estilo de vidamelhoram sinergicamente a resistência à insulina e a dislipidemia. 4 A criança e o adolescente devem idealmente ser acompanhados por um nutricionista ou nutrólogo, devido ao risco de comprometimento do seu crescimento e desenvolvimento. Interação entre genes, obesidade e níveis lipídicos, mas também com o tipo de gordura consumida na dieta, foi recentemente descrita. 5,6 Estudos sugerem a utilidade potencial de uma abordagem nutrigenômica para intervenções dietéticas para prevenir ou tratar a obesidade e sua dislipidemia associada. 5,6 É necessário conhecermosmais a respeito do comportamento dos marcadores de doença arterial coronariana, dos níveis séricos de colesterol total, lipoproteína de baixa densidade, apolipoproteína B, lipoproteína de alta densidade das crianças e adolescentes em relação aos adultos, 2 tanto no pré e no pós tratamento da dislipidemia secundária à obesidade, como no curto e longo prazos, considerando os riscos cardiovasculares e os efeitos adversos decorrentes do tratamento farmacológico, sobretudo das estatinas. 3,7-11 A terapia hipolipemiante deve ser iniciada após pelo menos seis meses de intensiva modificação de estilo de vida. Os medicamentos utilizados são as estatinas, os inibidores da absorção do colesterol (ezetimiba), os sequestradores dos ácidos biliares, os suplementos de fitosteróis, o ômega 3 e os fibratos. As estatinas são o fármaco de primeira escolha dentre todos os agentes farmacológicos para reduzir LDL-c, não-HDL-c e/ou apoB. Entretanto, as estatinas reduzem pouco os triglicérides e não corrigem totalmente a dislipidemia característica observada na obesidade, mantendo um risco residual após o início da terapia. 11 Recentemente, estratégias para terapias combinadas com estatinas e outras drogas para atingir níveis ainda mais baixos de colesterol foram revisadas. 11-15 As crianças e os adolescentes com dislipidemias e que não respondem adequadamente a mudanças de estilo de vida e a doses habituais de hipolipemiantes devem ser encaminhados a centros especializados. O trabalho apresentado nesta edição sobre a dislipidemia secundária em crianças obesas demonstra a raridade na literatura de ensaios clínicos randomizados do uso de estatinas para o tratamento de crianças e adolescentes com dislipidemia secundária à obesidade. 16 Sem dúvida, é um tema que devemos pesquisar profunda e detalhadamente com estudos bem delimitados para atestarmos a eficácia dos diversos tratamentos, já consagrados para a população adulta, na faixa etária pediátrica e de adolescentes. 362

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