ABC | Volume 110, Nº5, Maio 2018

Artigo Original Gabriel et al Diagnóstico da doença arterial coronária Arq Bras Cardiol. 2018; 110(5):420-427 Introdução A doença arterial coronária (DAC) constitui a principal causa de mortalidade no mundo, inclusive no Brasil. Vários métodos são atualmente disponíveis para diagnosticar DAC, estratificar o risco de pacientes e determinar a necessidade de revascularização. 1 Diante deste cenário, um dos mais frequentes desafios da prática cardiológica cotidiana é a escolha do método para detecção da DAC subclínica. A angiotomografia computadorizada das artérias coronárias (ATCC) constitui um teste predominantemente anatômico com excelente acurácia diagnóstica na detecção de lesões coronarianas obstrutivas e não obstrutivas, comparativamente à cineangiocoronariografia, considerada padrão ouro para esta finalidade. A ATCC pode, ainda, fornecer informações relevantes quanto à composição do ateroma de acordo com a sua densidade radiológica. 2,3 A importância da presença de calcificação coronária, identificada mediante o escore de cálcio (EC), utilizada na reclassificação de pacientes para um risco mais elevado de eventos cardiovasculares, é efetivamente reconhecida. Apesar da existência de placas ateroscleróticas ter sido demostrada mesmo em indivíduos com EC zero, 4,5 sua presença não tem se associado a eventos cardiovasculares futuros. 4 Entretanto, a despeito dos dados desses estudos internacionais, nacionalmente não logramos identificar trabalhos publicados acerca dessa questão específica. Com efeito, nem sempre os achados são replicáveis se mudarmos o contexto sociodemográfico, antropométrico ou mesmo o cenário local das condições de assistência à saúde. Um estudo precisa ser reprodutível para que seus achados sejam mais amplamente validados. Portanto, o objetivo principal deste estudo é avaliar a frequência de placa aterosclerótica coronária, assim como seu grau de obstrução e fatores associados em pacientes com EC zero com indicação clínica de ATCC. Métodos Casuística Trata-se de estudo transversal, analítico e prospectivo no período de abril de 2011 a novembro de 2016. A amostra foi constituída de modo não aleatória com os voluntários selecionados de forma consecutiva, os quais foram submetidos à ATCC por indicação de seus médicos assistentes, em quatro centros especializados de imagem, sendo dois públicos: Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia de São Paulo-SP e Hospital Universitário do Campus da Saúde Dr. João Cardoso Nascimento da Universidade Federal de Sergipe e dois privados: Hospital Primavera e Clínica de Medicina Nuclear e Diabetes-CLIMEDI. Foram coletadas informações sobre a presença de fatores de risco cardiovascular em cada indivíduo. A dor no peito foi classificada de acordo com a Métodos de Diamond e Forrester, sendo a maioria dos pacientes classificado como portadores de risco intermediário para DAC. Foram incluídos na análise os pacientes com ausência de cálcio nas coronárias (EC zero), sendo excluídos aqueles submetidos a procedimentos de revascularização do miocárdio percutânea ou cirúrgica, história de síndrome coronariana aguda ou miocardiopatia de etiologia isquêmica conhecida. Além disso, foram, também, excluídos pacientes que se recusaram a participar do trabalho. Os exames realizados nas instituições privadas não acarretaram em ônus para os pacientes nem para os pesquisadores. O estudo possui aprovação do comitê de ética e pesquisa sob número de protocolo CAAE 0289.0.107.000-11. Aquisição do EC e da ATCC das Artérias Coronárias As ATCCs foram realizadas em tomógrafos possuidores de pelo menos 64 colunas de detectores dos seguintes modelos e fabricantes: Aquilion64 ™ - Toshiba ™ Medical Systems Corporation , Otawara, Japão e Discovery STE VCT - General Electric Company, Connecticut , EUA . A tomografia não contrastada para análise do EC foi realizada em um campo de varredura longitudinal a partir da delimitação na bifurcação da traqueia e o término na inclusão da silhueta cardíaca, incluindo a porção final do diafragma para total cobertura da área cardíaca. As imagens correspondentes ao EC foram adquiridas com campo de visão ( field of view, FOV ) de 200 mm; espessura de corte de 2,5-3 mm; intervalo de corte de 1,25-1,5 mm; colimação de 2 x 32 x 0,6 mm; tempo de rotação de 350 msec; tensão do tubo de 120 kV; e corrente do tubo de até 600 mAs. A investigação foi sempre conduzida em duas etapas: na primeira, o EC foi quantificado baseado no escorevale res de Agatston, 6 a calcificação foi definida como a presença de uma lesão com área maior que 1 mm 2 e intensidade igual ou superior a 130 unidades Hounsfield (HU), que foi automaticamente identificada e marcada com cor pelo software . A presença de placas coronárias e a extensão da estenose foram avaliadas nos pacientes com EC zero. Na segunda etapa do protocolo, era obtida a ATCC com a utilização dos parâmetros do EC para delimitação do FOV, com voltagem de 120 KV e amperagem de 400 miliamperes. Com o paciente ainda monitorizado sobre a mesa do tomógrafo, até 1,5 mL/Kg de iopamidol era injetado por via endovenosa, um contraste iodado não iônico em concentrações de 350 ou 370 mg/mL (Ultravist® 370, Bayer HealthCare and Pharmaceuticals, Berlim, Alemanha; HenetiX® 350, Guerbet Produtos Radiológicos Ltda, Paris, França), a uma taxa entre 4,5 e 5,5 mL/s. Foi administrado betabloqueador oral nas 24 horas que antecediam a realização do exame, ou intravenoso (IV) no dia do exame, nas situações em que pacientes apresentavam ritmo sinusal e frequência cardíaca (FC) > 70 bpm. Para realização do exame, o equipamento toma como referência os valores monitorizados da frequência cardíaca e determina os parâmetros necessários para aquisição das imagens como o helical pitch (relação entre a distância percorrida pela mesa durante um giro de 360° do tubo de raios X, a espessura de corte e o número de colunas de detectores), a velocidade de rotação do tubo de raios X e o tempo total de exposição, tendo como objetivo atingir a melhor resolução temporal possível. 421

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